- O chão aqui é tão sujo, eles urinam aqui, cuidado ta?"
-Ta bom.
Já outro rapaz, jovem, me lança um olhar de cumplicidade e um sorriso.
Ouço fragmentos de conversas que passam por mim. Alguns até param de falar ou diminuem o tom de voz distraídos pela minha presença, me olham de canto de olho como se me indagassem, ou a si próprios, o que diabos estou fazendo ali. Assim são os espaços públicos, onde as ações já se realizam quase que no automático e portanto qualquer interferencia que quebre essa conduta predisposta torna-se um ruído, instigante de certo modo. A travessa liga a pracinha do Bairro Peixoto ao início da Santa Clara. Surpresa, pois eu jurava que ela dava na rua Figueiredo Magalhães e portanto, quando chegava ao local, vim andando por essa última rua, procurando a saída, a fim de desembocar na praça e, assim como tantas outras vezes que passei pela Figueiredo Magalhães de carro ou ônibus, fiquei a procurar em vão a travessa. Acabei por entrar pela praça, de onde já a havia avistado outra vez, e la estava ela, do lado oposto ao qual eu me encontrava. é uma sensação confusa de estar perdida no espaço tempo, exatamente a mesma relação que fiz quando a vi pela primeira vez, como um lugar secreto que, ate então, se escondia de mim.
Ih, passou um cara numa bicicleta, seguido de uma mulher empurrando outra.
Mas a questão é que isso me remeteu a uma história que meu pai contava quando eu era criança, que quando ele trabalhava na Embratel no centro da cidade, enquanto cursava a faculdade de belas artes, certa vez, caminhando pelo entorno, viu uma loja de materiais de arte aberta porém escura, apenas com luz de vela. Lhe chamou atenção, afinal, costumava reparar em estabelecimentos desse tipo. Entrou, perguntou sobre, recebeu a resposta de que era uma loja que estava abrindo e por isso ainda estava em reforma, olhou uma coisa ou outra na prateleira e foi embora. Diz ele que dias depois voltou a procurar esse lugar mas nunca mais achou.
Outra bicicleta, realmente seria uma volta enorme a se dar apenas para respeitar regras.
Mas anos depois voltei a perguntar ao meu pai sobre a história que ficou marcada pra mim e que até então acreditava de verdade, tendo gravado uma imagem muito clara e sombria que fiz na minha cabeça, ele disse então que a tinha inventado, disso me lembro bem. Recentemente voltamos a esse assunto e ele me jurou que de fato isso tinha ocorrido, mas agora não acredito mais, o que acredito é que em alguma esfera a historia existe e que talvez nem meu pai saiba ao certo o que aconteceu e se aconteceu.
Na entrada que desemboca na praça ha uma placa com o titulo "Bairro galeria" e diz:
"O bairro galeria é um projeto de incentivo a cultura das ruas. Acreditamos que é chegada a hora de quebrar as barreira e estabelecer o grafitte como uma nova vertente da arte e nossos muros como uma nova opção de galerias. Por isso nosso trabalho é catalogar a arte dos muros e colocar tags com a identificação da obra e de seus artistas, igualzinho ao que fazem os museus em grandes exposições. Com isso pretendemos criar as primeiras galerias a céu aberto e valorizar o trabalho de nossos artistas."
Perpassando as obras presentes na travessa nota-se algumas com suas plaquinhas de identificação e ja tantas outras sem elas que provavelmente foram feitas posteriormente e aleatoriamente e que de forma alguma destoam em termos de qualidade das catalogadas. Fiquei a questionara validade de uma iniciativa que tenta aproximar um tipo de arte que tem seu berço nas ruas a um modelo de museus e catalogações de obras.
Pesquisando posteriormente sobre a chamada Travessa Moacyr Deriquem, como esta identificada na entrada, descobri que ela é popularmente conhecida como Boca do Lobo e que muito antes de qualquer projeto ordenativo o lugar já era repleto de grafites que desorganizadamente ocupavam a passagem e que provavelmente muitos foram cobertos pelo que atualmente a habitam.



Memórias inventadas que poderiam ter se passado dentro do beco.
ReplyDeleteAfinal, o que seria? Seria o beco real?