Thursday, August 28, 2014

'Facho de mato', poeira, pedras...

O início se deu muito antes do anúncio da tarefa...
Estabeleceu-se na Comunhão dos alimentos, no comer com as mãos sentados no chão em roda.
Dos sabores vinham histórias, culturas, imagens, sensações... memórias sensoriais.
A Conexão. Foi a comida quem trouxe.Tendo ela sido estabelecida, assim se manteve.
Todos partiram. Mas era Uno.
A imagem de cada um desses pontos (os atores) criando fios de ligação para cada uma das pessoas do projeto.Um ator em cada ponto da cidade,
Com a trilha sonora individual pulsando em sincronia com uma trilha que ecoava distante,
vindo do ensaio dos músicos na sala do contêiner; ressoavam conjuntamente as palavras da equipe de direção
"Sua vivência já começa no percurso."
Não me sustentei em aguardar o ônibus certo.
Um radiosinho da cobradora falhava igualmente ao meu fone de ouvido único.
Ouvi a conversa entre ela o motorista, a estação que ela escutava e as que eu ia alternando.
"Ah! Eles pagam uma miséria..." (Remem, remem)
Lia as perguntas guia, uma em especial saltou aos olhos enquanto tocava  Norwegian wood
QUANTO MOVE UMA ÁRVORE?
O monumento dos pracinhas estava tomado por militares, tanques e tendas para as pessoas se protegerem do sol. Muito sol batendo na janela.
"Vou viver cantando o dia tão quente que faz..." A canção do sal tocava.
Desci muito antes e fui caminhando... "cuidado com a linha aê!" gritaram para mim, quando passei entre a Igreja e a padaria. Era uma molecada soltando pipa.
O olhar sobre as coisas mudaram. Havia algo novo naquele ambiente tão familiar.
A praça. pracinha. 45 passos de comprimento e 20 de largura dividiam  três ruas por esse largo em forma de triângulo.
No alto do prédio a inscrição que saltou aos olhos: 'SEJA +' - o epitáfio.
Muita poeira. de tudo.
Nas mesas onde se joga xadrez foram deixados dois livros, ambos completamente marcados com linhas horizontais por toda a sua extensão. Todas as páginas tinham isso.
PECADO E ARREPENDIMENTO - BISPO MACEDO
O OBREIRO APROVADO - BISPO RENATO SULKETT (2° CAP: O SAL DA TERRA)
Muitas placas e adesivos de políticos (Pezão, Liomar, Pedro Paulo); O Depósito Oração de Maria tinha sua trindade estampada na placa: GELO, ÁGUA E CARVÃO.
Ao seu lado, Thaty Piau e as delícias da vovó.
No centro da praça, a cabeça de Orlando Silva tinha uma barba desenhada com amarelo. Seu nome não era mais o mesmo:

R
L

N
D
O
S

L
V
A

O sol se pondo batia na face esquerda da cabeça.
Um pai puxa uma menina chorando - O medo começa no virar da esquina.
Muitas partes da calçada estão soltas. Chutei uma dessas partes sem querer.
Peguei uma das pedras e sentei no banco, escrevendo sobre o que podia ser percebido.
Pensei novamente:

O quanto move uma árvore?
Move alto se for pássaro
mexe no ninho se for passarinho
mexe lagarta, casulo, mariposa
muitos insetos...
Mexe macaco acuado (mas aqui, só pela borracharia)
Quando verde,
Move homem e bicho pra sombra
Quando seca, move o grito mudo
move a terra para nutrir a raíz
move um grito surdo quando se é derrubada
e move fogo quando lenha

Saí por uns instantes, esqueci lá minha pedra. Ao voltar, o borracheiro conversa ao celular sentado no banco ao lado da pedra.
Me aproximo, ele para instantaneamente, digo 'com licença', pego minha pedra e saio.
Uma pedra que me dissesse o quanto ela cheira.
Mas só uma? E Cada ator em um ponto da cidade, é necessário que todos saibam.
Onze pedras.
Agora posso voltar, carregava todos comigo...

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