Nego, Nego, Nego, Nego... Todos pareciam saber quem escreveu
“Nego” vinte e nove vezes na porta do trem e quando estava prestes a se cansar,
deixou mais um recado: “Pode ficar boladão Alemão”.
Da Central até Manguinhos é bem pertinho. A chegada é do
tamanho de uma pequena linha ferroviária.
Na viagem, sempre é
bom levar alguns trocados em punho. Nunca se sabe quando pode passar o moço da
pimenta mexicana ou do torresminho.
O povo levava uma melodia embalada pelo balanço do trem, quem
se encarregava do solo era uma jovem menina que cantava quase sem abrir a boca:
“Oh! Vida de Pobre, Oh! Vida de Pobre”.
Lá em Manguinhos vi que esqueceram de varrer os escombros e
passar um paninho para disfarçar o barro. Senti falta de uma dona de casa de nome
forte, que certamente nunca deixaria algo assim acontecer.
O Mamoeiro, antes tão vistoso, agora o sinto amarelado. Acho
que ninguém mais rega.
As roupas no varal, ninguém quer recolher. Estão lá dançando
conforme o vento pede. Com o tempo ficarão com cor de chão.
Vejo muitas crianças. Será que só sobraram elas? Agora
entendi porque ninguém tira as roupas do varal. Na Verdade ninguém mais as
alcança, vão ter que crescer primeiro.
Os recados nas paredes. Já não sei quem os lê. Não sei se
são para mim, para Deus ou para alguém que se foi, mas quem partiu dificilmente
volta para receber recados. Devem estar muito longe, penso que foram todos para
o outro lado, bem perto do fim da linha.
Quem conduz os conduzidos sempre é o trem. Pena que demora
muito a passar. Se você for o conduzido não pode ter pressa. Acho que deveriam
escrever este aviso na parede.
O sol veio com um caminhão de mudanças, dividindo espaço
entre o fogão e a geladeira.
O vento não parava de circular. Posso dizer que lá eles guardam
o melhor vento da cidade. E observando todo o barro que deixaram de limpar,
pensei como deve ser gostoso brincar naquele chão fofinho e avermelhado.
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