Tuesday, August 12, 2014






















Não, eu não tô falando grego. Nem egípcio. Nem Latim. Eu já lati pra você. Já rosnei. Já uivei. Também. Eu uivo, as vezes.
Não, não é assim. Assim não. Chega!
Outra vez? Você aqui? De novo tudo?
Muito bem! Pro fim do corredor...senta.
Do lado da porta! Não! Na madeira.
tão pálido, precisas de sol?
Não adianta jogar semente aí, é secura. Vê? Secou.
Não tem como crescer.
Não tem.
É.
Não tem raiz!
Não tem?! Claro que tem! Percebe: tem passado, tem memórias, ecos, risadas, sensações lindas...
Tem sim.
Mas mesmo assim, aqui não floresce.
Tem vida!
Mas é delimitada em seu próprio ciclo.
Então desaba?
Tem bons alicerces.

A casa do Oscar  

Poemas, testemunhos, cartas - 2000

A casa do Oscar era o sonho da família. Havia o terreno para os lados da Iguatemi, havia o anteprojeto, presente do próprio, havia a promessa de que um belo dia iríamos morar na casa do Oscar. Cresci cheio de impaciência porque meu pai, embora fosse dono do Museu do Ipiranga, nunca juntava dinheiro para construir a casa do Oscar. Mais tarde, num aperto, em vez de vender o museu com os cacarecos dentro, papai vendeu o terreno da Iguatemi. Desse modo a casa do Oscar, antes de existir, foi demolida. Ou ficou intacta, suspensa no ar, como a casa no beco de Manuel Bandeira.
Senti-me traído, tornei-me um rebelde, insultei meu pai, ergui o braço contra minha mãe e sai batendo a porta da nossa casa velha e normanda: só volto para casa quando for a casa do Oscar! Pois bem, internaram-me num ginásio em Cataguazes, projeto do Oscar. Vivi seis meses naquele casarão do Oscar, achei pouco, decidi-me a ser Oscar eu mesmo. Regressei a São Paulo, estudei geometria descritiva, passei no vestibular e fui o pior aluno da classe. Mas ao professor de topografia, que me reprovou no exame oral, respondi calado: lá em casa tenho um canudo com a casa do Oscar.
Depois larguei a arquitetura e virei aprendiz de Tom Jobim. Quando a minha música sai boa, penso que parece música do Tom Jobim. Música do Tom, na minha cabeça, é a casa do Oscar.

Chico Buarque

4 comments:

  1. A casa do Oscar. Ou até o Oscar. Não era ele que a menina procurava ontem? Atrás da grade? A avó dela, sabe? O Oscar. Quem é o dono disso tudo? Sei não, só sei que foi o Oscar que pintou tudo isso.

    Por algum motivo me lembrei disso aqui. Penso que foram os uivos.

    "Às vezes, no final da temporada de verão, quando os turistas iam embora de Calella, ouviam-se uivos vindos do morro. Eram os clamores dos cachorros amarrados nas árvores.
    Os turistas usavam os cachorros, para alívio da solidão, enquanto as férias duravam, e depois, na hora de partir, os cachorros eram amarrados morro acima, para que não seguissem os turistas que partiam."
    (Eduardo Galeano, "A Civilização do Consumo" - Abraço contido na página 184 do "Livro dos Apraços"

    ReplyDelete
  2. "Os turistas usavam os cachorros, para alívio da solidão, enquanto as férias duravam" me lembrou da foto da Gaia com os pés de férias. Eterno companheiro do outro, alguém aqui disse. E quando não é mais? o pé amputado que ainda coça, coça por não estar com seu irmão, por ver, sentir e tocar aquilo que outro presencia... a falta que nos move

    ReplyDelete
  3. — Todo ano eu pintava a minha casa. Eu vivia fazendo um ajuste, dando uma enfeitada na casa. Agora nós não temos ânimo para mais nada. Olha o teto, cheio de infiltrações, mofo. É muita umidade, porque eles demoliram as casas de quem aceitou sair e largaram esse entulho aí. Agora, nós sofremos com ratos, cobras, baratas e umidade, muita umidade. A gente está vivendo em uma situação precária. Sem contar que eles estão sempre fuçando na rede elétrica. Já teve uma queda de energia na minha casa e eu perdi uma geladeira. Depois eles vão embora e largam a gente no escuro. Essas lâmpadas espalhadas pela rua somos nós que colocamos. Fazemos um mutirão e vamos refazendo a iluminação — afirma.

    Senhor José Geraldo, de 57 anos, é um dos poucos que segue resistindo às remoções em Manguinhos.

    Senhor Geraldo sobre as remoções

    ReplyDelete
  4. Ultima Canção do Beco

    Beco que cantei num dístico

    Cheio de elipses mentais,
    Beco das minhas tristezas,
    Das minhas perplexidades
    (Mas também dos meus amores,
    Dos meus beijos, dos meus sonhos),
    Adeus para nunca mais!

    Vão demolir esta casa.
    Mas meu quarto vai ficar
    Não como forma imperfeita
    Neste mundo de aparências:
    Vai ficar na eternidade,
    Com seus livros, seus quadros,
    Intacto, suspenso no ar!

    Beco de sarças de fogo,
    De paixões sem amanhas,
    Quanta luz mediterrânea
    No esplendor da adolescência
    Não recolheu nestas pedras
    O orvalho das madrugadas,
    A pureza das manhas!

    Beco das minhas tristezas.
    Não me envergonhei de ti!
    Foste rua de mulheres?
    Todas são filhas de Deus!
    Dantes foram carmelitas...
    E eras só de pobre quando,
    Pobre, vim morar aqui.

    Lapa – Lapa do Desterro -,
    Lapa que tanto pecais!
    (Mas quando bate seis horas,
    Na primeira voz dos sinos,
    Como na voz que anunciava
    A conceição de Maria,
    Que graças angelicais!)

    Nossa Senhora do Carmo,
    De lá de cima do altar,
    Pede esmola para os pobres,
    - Para mulheres tão tristes,
    Para mulheres tão negras,
    Que vem na porta do templo
    De noite se agasalhar.

    Beco que nasceste a sombra
    De paredes conventuais,
    És como a vida, que é santa
    Pesar de todas as quedas
    Por isso te amei constante
    E canto para dizer-te
    Adeus para nunca mais!

    Manoel Bandeira

    ReplyDelete