“O circo é uma família com sobrenomes
diferentes,
mas comportamentos iguais. As pessoas se
ajudavam,
ninguém passava fome. Existia
solidariedade, amizade.”
Nitinha Durso, minha tia
Os personagens envolvidos nessa empreitada
artística parecem retirados de um roteiro de filme, ou mesmo de uma história
épica-romântica-fantástica: meu avô, Carmindo Durso (1910- 1982) e minha avó, Alice
Rodrigues Ferro Durso (1914- 1993).
Alice
morava na casa de seus pais, em São João do Matipó- MG. Era filha de João
Ferro, um dos maiores fazendeiros da região. João Ferro era tão rico, mas tão
rico que o gerente do banco reclamava dizendo que não havia mais espaço para
guardar o dinheiro dele no cofre do banco. O que João Ferro tinha de dinheiro,
tinha de rigidez. Ele era muito enérgico e cismava que os filhos tinham que
trabalhar. Um dia, mandou Alice tirar leite de uma vaca chamada “Perigo” e o
resultado foi que a vaca pisou em cima dela toda e a deixou em carne viva. Ela
teve que ser deitada em folha de bananeira com óleo. Por essas e outras que
talvez, para Alice, não tenha sido tão difícil abrir mão de sua casa e sua família.
Foi
em 1933, quando tinha 18 anos, que chegou o circo na cidade e, junto dele, o
Palhaço Paralama, vulgo Carmindo Durso. Alice e Carmindo se apaixonaram
fervorosamente, e quando o circo ia zarpar para outro destino, trataram de dar as
mãos e seguirem juntos com o circo. Alice largou tudo e aprendeu a ser artista
de circo, mais especificamente, trapezista, se tornando a Mulher Borboleta.
Passaram por poucas e boas. Tiveram uma linda filha, chamada Nitinha, que também tratou de se tornar artista de circo, a "Shirley Temple Brasileira". Nitinha se lembra de um dia de grande aperto quando, certa
vez, chovia incessantemente por 20 dias e o circo não conseguia estrear.
Estavam sem dinheiro nenhum, então, Alice decidiu abrir o cofre de Nitinha
e dividir com todos do integrantes do circo. Neste dia, Nitinha chorou incessantemente.
O palhaço Paralama
se vestia como um palhaço tradicional de circo: um aro de papelão listrado como
gola, gravata borboleta, suspensório e chapéu de cetim. Sua roupa era branca e
vermelha. Tinha uma cadela de pano, chamada “Mijoleta”. Seu sucesso era pegar a
cadela e jogar em cima dos outros, falando “Mijoleta, pula!”, só que ela era
presa com um elástico, e sempre parecia que ela ia cair em cima do público, mas
ela sempre voltava para a mão firme do Paralama. Para castigar sua cadelinha,
batia com ela no chão, dizendo “Uiuiui, segura ela!”. A cadela nunca batia em
ninguém, ele tinha a percepção de espaço muito aguçada. Tão aguçada que depois
que saiu do circo foi pintor e letrista, e nunca mediu nenhuma parede para
escrever algo. Sempre acertava a medida das palavras no muro.
Alice, a trapezista Mulher Borboleta,
colocava 7 quimonos japoneses e ia tirando eles durante seu número do trapézio.
Ao final, estava de roupa de borboleta, lá no alto. Um dia, a Mulher Borboleta
caiu de 15 metros de altura e o osso chegou a sair do braço.
Viajaram
muito, por quase o Brasil inteiro, de trem ou caminhão, pois as vezes ficava
mais barato ir de trem. Quem montava o circo era chamado de “marra cachorro”.
Quem trabalhava no circo trabalhava até tarde e dormiam durante o dia,
deixando as crianças soltas e livres, por isso quase sempre precisavam de babás
e cuidadoras. Tody,
um pastor alemão do circo, de vez em quando, enquanto os pais dormiam, fazia o papel
de babá de Nitinha.
Alice cansou de ser borboleta, sentiu saudade
de sua família e de firmar os pés na terra. Vida de circense não era mole. Decidiram
sair do circo e ir para Carneirinhos, cidade onde estavam os pais de Alice. O
palhaço Paralama sempre sentiu saudade do circo e do público que o recebia com carinho. A nostalgia da vida cigana-circense, livre desse sedentarismo urbano, seduz a família até hoje, até mim.
São João do Matipó- MG, de onde Alice começou a ciganar:
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ReplyDeleteQue ótimo isso, Padu!
ReplyDeleteJoão Ferro, Mijoleta, a vaca Perigo, Paralama, Mulher Borboleta... todo o glossário é delicioso.
Me lembrei de uma coisa que João e eu conversamos muito nas nossas reuniões de antes e que também falamos no primeiro encontro com todo mundo, que é: qual a linguagem específica do grupo de pessoas que queremos criar? Qual o modo deles de se comunicarem, nomearem as coisas? Sobre como esta forma de falar, de nomear, de se referir a algo, etc, pode criar um imaginário e uma atmosfera única E acho que dentro disso entra também os nomes dessas pessoas.
To falando isso porque todos os nomes dessa história do Carminho são muito SÓ DESSA história, caracterizam muito o universo e a atmosfera dela. Como se fizessem parte de um mesmo pacote de imaginários, sabem? Isso eu acho um ponto bem bom da gente se atentar na construção da dramaturgia.
Enfim, falamos no ensaio. Mas achei um saterial dramatugico MUITO legal!!
É isso Toto!!!
ReplyDeleteArrasou Padu!
uma vaca chamada “Perigo” pisou na menina e a deixou em carne viva. Ela teve que ser deitada em folha de bananeira com óleo!!
Ela se lembrava que uma vez chovia por 3 meses ininterruptamente. 3 Meses!
Alice, a trapezista Mulher Borboleta, colocava 7 quimonos japoneses e ia tirando eles durante seu número do trapézio. Ao final, estava de roupa de borboleta, lá no alto. Um dia, a Mulher Borboleta caiu de 15 metros de altura e o osso chegou a sair do braço.
Dá vontade de visitar esse lugar e esse tempo na companhia desses personagens.
ReplyDeleteAcho muito importante esse olhar para que linguajar vai nos unir de alguma forma.
A coragem da mulher borboleta, vinda de Minas, me lembrou a esse trecho.
ReplyDelete"Ai, minas de minha alma, alma de meu orgulho, orgulho de minha loucura acendei uma luz no meu espírito, iluminai os desvãos do meu entendimento e mostrai-me onde esse vagabundo maravilhoso, esse meu irmão desvairado que no fundo vem a ser o melhor da minha razão de existir. foi ele, esse iluminado de olhos cintilantes e cabelos desgrenhados que um dia saltou dentro de mim e gritou basta! num momento em que meu ser civilizado, bem penteado, bem vestido e ponderado dizia sim a uma injustiça. Foi ele quem amou a mulher e a colocou no pedestal e lhe ofertou uma flor. Foi ele que sofreu quando jovem a emoção de um desencanto, e chorou quando menino a perda de um brinquedo, debatendo-se na camisa- de -força com que tolhiam seu protesto. Este ser engasgado, contido, subjugado pela ordem iníqua dos racionais é o verdadeiro fulcro da minha verdadeira natureza, o cerne da minha condição de homem, herói e pobre diabo, pária, negro, judeu, índio, cigano, santo, poeta, mendigo e débil- mental, Viramundo! que um dia há de rebelar-se dentro de mim, enfim liberto, poderoso na sua fragilidade, terrível na pureza da sua loucura."
O Grande Mentecapto - Fernando Sabino.
Interessei-me pela história por ser de Matipó e, por muitas vezes ter ouvido falar do senhor João Ferro. Era mesmo um fazendeiro, não sei se tão rico e foi casado por duas vezes. Provavelmente Alice era do primeiro casamento. Suas propriedades, ficavam às margens de uma estrada que até hoje é de terra e, opcionalmente liga Matipó à BR 262. Outro detalhe, desde o dia 17 de Dezembro de 1938, data de sua emancipação politica, o município passou a chamar-se somente Matipó. Quanto às fotos, são autênticas e algumas feitas por mim. Parabéns pela história.
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