Wednesday, August 6, 2014

Sobre ficção, realidade, estrutura...

Gente,
algumas reflexões sobre o sistema que jogamos no último ensaio:

1- O sistema:
- Quatro jogadores, A, B, C, D, sentados cada um em um cadeira, todos em volta de uma imagem. A de frente pra B, C de frente pra D;
- B se movimenta e A espelha seus movimentos;
- C faz perguntas sobre a vida pessoal de A, que responde;
- D faz perguntas para A como se ele fosse a pessoa da imagem do chão e A responde como tal.
- Tanto as perguntas quanto a movimentação acontecem num fluxo ininterrupto.

2- Reflexões

Pensando aqui sobre tipos de sistemas, escrevi que este que jogamos é um sistema complexo. Complexo no sentido de propor, com sua estrutura, o cruzamento de diferentes camadas de significado que se constroem simultaneamente,que são: o movimento, as perguntas pessoais e as perguntas ficcionais. A graça do jogo me pareceu ser exatamente esta: investigar os modos de combinação entre as três camadas e ir descobrindo como uma pode negar a outra, ou enfatizar a outra, ou questionar a outra, se justapor a outra, se sobrepor a outra, etc. O sistema obriga necessariamente que este jogo de combinações aconteça, e me pareceu que quanto mais íamos atentando para isto, mais instigante a coisa ia se tornando, a escrita a quatro mãos.

Pois bem.

Sobre nossa dramaturgia, neste momento dos processo, embora tenhamos muitas intuições, ideias e hipóteses, nada sabemos de fato sobre sua estrutura, sua forma, sua cara. O ponto-guia, porém, é claro: a construção de uma ficção. A construção de um encontro entre pessoas fictícias: personagens. E o que eu achei mais interessante no nosso sistema é o fato dele de cara já nos atentar para possíveis sagacidades das quais podemos nos valer para manejar a nossa matéria ficcional.

No sistema, estávamos trabalhando com a criação de ficção quando D fazia as perguntas para A a partir da imagem. A partir das respostas de A, começávamos a enxergar, bem aos poucos, uma figura ficcional. Paralelo a isto, C fazia as perguntas pessoais para A e íamos sabendo dados pessoais do jogador.
Ok.
Se no começo do jogo, o ficcional e pessoal diziam respeito a figuras distintas - Vitor e um dos gêmeos da foto, por exemplo - , num segundo momento, eles começavam a se misturar, a trabalhar juntos, um complexificando o outro. Um começando a dizer sobre o outro. As respostas pessoais acabavam lançando um novo ponto de vista sobre a figura ficcional e seu universo, e vice-versa. A partir daí, identificar esta figura tornava-se um trabalho mais delicado por parte do "espectador do jogo", mais sutil, pois para tal, era preciso tecer significados entre dois mundos distintos, o real e o do faz-de-conta. Este trabalho mais pensante e mais ativo por parte do "espectador" do sistema foi umas das coisas que me chamou atenção no jogo. Me fez pensar sobre como podemos, dentro de uma fábula muito bem definida, construir pontos de contato entre ela e a nossa realidade, fugas para o real. E aí, dentro disso, acho que não existe caminho dado. Como esta relação entre  eles, o grupo de pessoas ficcional, e nós, grupo de artistas que vivem uma realidade em comum, como esta relação pode se dar, isso só investigando mesmo e chegando a um lugar só nosso (se for o caso de nosso caminho nos levar para esta investigação...).

Mesmo que esta relação não seja um lugar dado, ela me faz lembrar de investigações já existentes sobre a coisa. As  operações do Brecht de distanciamento, por exemplo, onde a fácula mega hiper bem construída e consistente convive com a opinião crítica daquele que a conta (autor, diretor, ator, etc.) sobre a própria fábula contada.  O personagem realiza uma ação e eu, ator, explicito, ou pelo menos me pergunto, e pergunto para o publico, sobre as possíveis contradições contidas na ação feita. O espectador é colocado diante de dois universos distintos que, assim como no nosso sistema, começam a dialogar. Ele passa a ser um espectador mais crítico neste tecer real com ficção.

Acho que todo o jogo que o teatro contemporâneo tem pesquisado sobre relações entre ficção e realidade, embora não dê pra colocar tudo num mesmo saco, tem muito a ver com essa postura mais pensante por parte do espectador. Lembrei, por exemplo, do Vertigem, que colocou as três peças da trilogia bíblica, cada uma em um espaço "real" (igreja, hospital, presídio). As três dramaturgias eram ficções, porém o choque delas com o grau de realidade dos lugares escolhidos causavam este atrito de que falo sobre nosso sistema. O ficcional e o real se alimentando e se perguntando e se modificando um ao outro... Neste caso, o "cenário" , a espacialidade, talvez seja a camada que mais atua neste sentido. No caso do  Enrique Diaz e toda a galera mais dele, mais carioca dos últimos tempos, acho que a coisa está mais na figura do ator e no seu jogo biográfico, por exemplo, com a ficção (ou com pedaços de ficção). De qualquer forma, nos dois casos a tal visão mais instável e crítica do espectador se dá. Ou seja: não há caminho dado e tal relação pode ser feita através do choque de várias camadass diferentes (figurino e narrativa, palavra e corpo, sei lá, varias). Cabe a gente descobrir como isto se dá no nosso caso. E mais do que isso, se esta investigação será uma investigação nossa.

Ela sendo ou não, achei interessante colocar que o sistema me levou pra este lugar e que acho um lugar potente para discutirmos juntos. Falei com o João que os materiais da Padu e do Lucas sobre os caminhos no blog, os dois são de fato muito pessoais e muito instigantes, e acho legal que pensar como esta potência pode nos servir.
- Como este tema nos afeta pessoalmente?
- Como este tema nos afeta particularmente e em coletivo?
- Como e onde este tema está na nossa realidade?
- Como nossa ficção quer lidar com isso? Em que grau? Em que grau para nós e em que grau para o espectador?
- Como cada um tem tem vontade de falar, dançar, gritar, desenhar, brincar, construir este tema? A pessoalidade passa por essa vontade?

Acho que é isso.

Ainda sobre os sistemas, coisas que me chamaram a atenção

1- O Vitor (Seixas) falou sobre o suo recorrente da palavra "moço" por parte dos As quando eles eram as pessoas das fotos. Lembrou a coisa que escrevi sobre o trabalho da Padu aqui no blog, dos nossos vocabulários, nosso glossário que situa um universo, uma atmosfera, um lugar específico. A palavra "moço" é interessante. Me lembra uma coisa meio brasileira (não sei se é, na verdade...) de subserviência, de inferioridade. "Seu moço, desculpa pro seu moço, desculpa pro seu moço-seu patrão", etc. "Moço" é uma palavra terna também. "Moço, moça" Enfim: Vitor atentou pra isso e achei legal também. Talvez seja legal ter isso na nossa cartola dramatúrgica (cartola dramatúrgica?!!rs) nos nossos prósimos jogos.

2- "- Qual seu sentimento favorito?
      - Alívio. (tempo) Alívio é sentimento?"
      Padu sendo A e Vitor sendo D.

3- Em uma das fotos, um velho segurando um pássaro. O jogador fala que o pássaro se chama "Carinho". E Carinho é o seu amuleto.

É isso, gente.
Beijos, até sexta.

1 comment:

  1. Toto, que reflexão incrível.
    Acho que é por aí que tenho pensado o nosso caminhar. Me pergunto como se dá esse encontro entre o real e a ficção o tempo todo. Como será o nosso modo de operação dos temas que queremos abordar com a peça? Qual será a forma como entenderemos o ficcional? Enfim, perguntas e mais perguntas que aos poucos vamos encontrando em nós mesmos.
    Vamos caminhar

    ReplyDelete