CANAL DO MANGUE
O homem margem, lentamente, de lugar nenhum. Cinza vazio, um
barquinho de papel! O resto da gente ele leva. Tem cheiro de homem, cheiro de
mangue, fantasma de caranguejo, homem de varias patas escondido entre as raízes
suspensas. É o motorista que leva na lentidão do tráfego. A prefeitura comanda
os comandados, de todos os lados.
O sol bate em todos os lugares.
A senhora (ela repetiu a pergunta do João, assim que eu subi
no 433 que é ônibus que eu mais gosto) – “ onde é que bate o sol? Aqui ou lá?
Eu vou ficar aqui onde não bate sol! O sol tá batendo aí? E tudo bem? Graças a Deus eu ajudo muita
gente. Muita. (eu havia respondido Senhora o sol bate em todos os lugares,
depende da direção que estivermos andando. Ela saltou de lugar em lugar, cada vez
que o ônibus fez uma curva. Carlos nos guiava pelas vias desimpedidas da praia
de botafogo).
Lembro-me da ultima vez que fui ali. Um velho senhor
cambaleante levou meu celular dizendo – passa o aparelho. Eu tive tempo de
argumentar dizendo – moço é velho, moço ta quebrado, moço o senhor não vai ganhar
nada com isso. Ele insistiu. Eu passei o aparelho e até chorei, sei lá porque. Eu
podia ter corrido, foi um senhor que me parou. Mas não sei, eu sou dócil, é só
vir uma voz mais impositiva que eu não crio resistência.
Cidade Nova. Desci. olhei.
Demorei pra perceber que realmente não havia caminho que me levasse ao lugar –
à margem, ao canal do mangue. Olhei.
Fiquei uns vinte minutos olhando, de cara, assim, boca aberta, pensando em
correnteza. Como é forte a correnteza de carro nessa altura do Rio. E eu na
margem. Olhei à outra – um homem sentado, de costas para mim. Era ele o ponto,
o motivo, era ele a outra margem do Rio. Será que é perigoso lá?
Moça, como é que eu faço para chegar lá? Não, não ali na
outra pista, mas na margem, na margem do canal do mangue, onde está aquele
senhor de costas. Ah, minha filha, eu acho que voce pode tentar quando os
carros pararem um pouco, mas tem que tomar cuidado porque aqui ninguém respeita
ninguém não.
Olhei aquela latinha amassada, quase colada no asfalto de
tão esmagada, de coca-cola no chão. Aqui ninguém respeita ninguém não.
Tomei coragem. Os carros engasgaram em algum sinal mais pra
lá. Corri. Cheguei. Olhei o outro lado: distante. Pessoas na outra margem agora, esticando os
dedos pros ônibus baleias que vem, vem, vem. Srs Carlos conduzindo os
conduzidos. Agora eu sou perigosa pois estou flanando. Aqui, quem flana, é perigoso. Só não é
perigoso quem está indo ou vindo, quem tem família, quem tem trabalho, quem tem
sonho, quem não está esmagado feito lata de coca-cola no chão e não tem tempo
pra olhar o vazio e perceber que lá embaixo, no canal do mangue, a água esgoto
corre lenta, lenta...
Nesse momento da minha vida: eu lata de coca-cola (tenho
pesadelos com atropelamentos e com perder minha alma pros caimhoes de srs Carlos).
Eu margem cinza e distante (tenho tempo para flanar e ser perigosa, observando
o fluxo lento do lixo que a gente produz, na margem do canal do mangue, e não estou
indo nem vindo. Estou ficando por aqui. ) eu barquinho de papel ( uma
embarcação frágil que carrega sonhos também frágeis para não sei aonde e segue
o caminho do rio).


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