ME DIZ SOBRE O SEU LUGAR
"Ao ver os escombros da casa onde nasceu, Mathusalém não conteve as lágrimas: 'Eu e meus irmãos, brincávamos debaixo dessa árvore, lembro de ficar correndo com os meninos, nesse espaço da frente. A gente costumava ir ajudar o papai a espremer cana-de-açúcar pra gente tomar com limão', conta, emocionado."
AUTO RETRATO FALADO
Venho de um Cuiabá de garimpos e de ruelas entortadas.
Meu pai teve uma venda no Beco da Marinha, onde nasci.
Me criei no Pantanal de Corumbá entre bichos do chão,
aves, pessoas humildes, árvores e rios.
Aprecio viver em lugares decadentes por gosto de estar
entre pedras e lagartos.
Já publiquei 10 livros de poesia: ao publicá-los me sinto
meio desonrado e fujo para o Pantanal onde sou
abençoado a garças.
Me procurei a vida inteira e não me achei — pelo que
fui salvo.
Não estou na sarjeta porque herdei uma fazenda de gado.
Os bois me recriam.
Agora eu sou tão ocaso!
Estou na categoria de sofrer do moral porque só faço
coisas inúteis.
No meu morrer tem uma dor de árvore.
Tem um rio e um pouco de árvores.
Nossa casa foi feita de costas para o rio.
Formigas recortam roseiras da avó.
Nos fundos do quintal há um menino e suas latas
maravilhosas.
Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas
com aves.
Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os
besouros pensam que estão no incêndio.
Quando o rio está começando um peixe,
Ele me coisa
Ele me rã
Ele me árvore.
De tarde um velho tocará sua flauta para inverter
os ocasos
ME DIZ SOBRE ELE E DO QUE ELE ANDA FAZENDO
Venho de um Cuiabá de garimpos e de ruelas entortadas.
Meu pai teve uma venda no Beco da Marinha, onde nasci.
Me criei no Pantanal de Corumbá entre bichos do chão,
aves, pessoas humildes, árvores e rios.
Aprecio viver em lugares decadentes por gosto de estar
entre pedras e lagartos.
Já publiquei 10 livros de poesia: ao publicá-los me sinto
meio desonrado e fujo para o Pantanal onde sou
abençoado a garças.
Me procurei a vida inteira e não me achei — pelo que
fui salvo.
Não estou na sarjeta porque herdei uma fazenda de gado.
Os bois me recriam.
Agora eu sou tão ocaso!
Estou na categoria de sofrer do moral porque só faço
coisas inúteis.
No meu morrer tem uma dor de árvore.
Manoel de Barros
O mundo meu é pequeno, Senhor.Tem um rio e um pouco de árvores.
Nossa casa foi feita de costas para o rio.
Formigas recortam roseiras da avó.
Nos fundos do quintal há um menino e suas latas
maravilhosas.
Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas
com aves.
Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os
besouros pensam que estão no incêndio.
Quando o rio está começando um peixe,
Ele me coisa
Ele me rã
Ele me árvore.
De tarde um velho tocará sua flauta para inverter
os ocasos
Manoel de Barros
ME DIZ SOBRE ELE E DO QUE ELE ANDA FAZENDO
"Irmã Bernadete conta um dos momentos mais emocionantes de toda essa história: 'Havia um pescador, inconsolado de cócoras ao lado do rio, chorando muito. Sua mudança já estava toda no CARRO
O APANHADOR DE DESPERDÍCIOS
Uso palavras para compor meus silêncios
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.
Manoel de Barros
ela me entrega às suas lesmas.
Não sei se isso é uma repetição de mim ou das
lesmas.
Não sei se isso é uma repetição das paredes ou
de mim.
Estarei incluído nas lesmas ou nas paredes?
Parece que lesma só é uma divulgação de mim.
Penso que dentro de minha casca
não tem um bicho:
Tem um silêncio feroz.
Estico a timidez da minha lesma até gozar na pedra.
Manoel de Barros
" A visita foi acompanhada pelo vereador Mathusalém Maia, que foi o primeiro a saber das ruínas, a Coordenadora de Cultura do município, Mariane Souza e pelo guia Gil Queiroz, sendo os dois primeiros antigos moradores da cidade."
Conheço de palma os dementes de rio.
Fui amigo do Bugre Felisdônio, de Ignácio Rayzama
e de Rogaciano.
Todos catavam pregos na beira do rio para enfiar
no horizonte.
Um dia encontrei Felisdônio comendo papel nas ruas
de Corumbá.
Me disse que as coisas que não existem são mais
bonitas.
Manoel de Barros
Em vez de peraltagem eu fazia solidão. Brincava de fingir que pedra era lagarto. Que lata era navio. Que sabugo era um serzinho mal resolvido e igual a um filhote de gafanhoto. Cresci brincando no chão, entre formigas. De uma infância livre e sem comparamentos. Eu tinha mais comunhão com as coisas do que comparação.
Porque se a gente fala a partir de ser criança, a gente faz comunhão: de um orvalho e sua aranha, de uma tarde e suas garças, de um pássaro e sua árvore. Então eu trago das minhas raízes crianceiras a visão comungante e oblíqua das coisas. Eu sei dizer sem pudor que o escuro me ilumina.
(Memórias inventadas – As Infâncias de Manoel de Barros)
TRECHOS: http://diariodonordeste.verdesmares.com.br/cadernos/regional/antiga-jaguaribara-reaparece-nas-aguas-do-acude-castanhao-1.265925

Vitor, adorei essa essa referência do Manoel de Barros de "Corumbá, terra de garimpo", pro Melanias!
ReplyDelete. Acho que traz um novo ponto de vista pro Melanias , pra relação dele com as as matérias que ele toca. Essa coisa que o Manoel de Barros fala de lançar sobre as coisas do mundo olhares de invenção é muito interessante de pensar. Ele diz que o os objetos estão pedindo, implorando, pra se libertarem dos seus significados.
A matéria que o Melanias toca é ouro, né, no seu trabalho de garimpeiro. Metal. Pode ser legal pesquisarmos sobre alquimia, que á transmutação de metais em ouro e tava ligado à uma ideia de trabalho espiritual tambem. Transformas a matéria era transformar o espírito.
Essa criatura que é alegoria do trabalho, da exploração, mas que traz com ele um olhar muito atento pra matéria que manuseia, acho que aprofunda a criatura, complexifica. A figura bruta, tosca, trabalho braçal que tem um olhar de invenção pras coisas e interesse genuíno pelo mundo.
E sobre esse olhar manoel de barros sobre as coisas, pode ter a ver com Zoé e Noah também. A lógica da criança de invenção de sentido pras coisas, de descobertas dos objetos, etc.
Gostei, fiquei pensando...
tôto, na conversa que tivemos na casa do João, conseguimos entender as criaturas como arquétipos (Melanias sendo o arquétipo do trabalho) mas também como a personificação do espaço em que vivem. Nesse sentido, Melanias é a beira do rio: os garimpeiros, os pescadores, as lavadeiras etc. O Manoel de Barros trouxe pra mim essa respiração, esse cuidado com a palavra (que super justificava sua mudez e a relação com o escrever nas paredes), a justificativa pra se relacionar com o Homem chamado Cavalo. Essa coisa do Colecionador pra mim também fica muito forte nesse olhar sobre o que não tem importância, sobre o insignificante, que tem seu valor agregado na memória que carrega. Adoro a coisa da Alquimia. Isso me leva pra lugares sensacionais. Me remete a outra referência que tive trocando com o João: Melquíades, e super casa com ele a noção espírito/matéria, alquimia, imortalidade... os conhecimentos que ele trás pro José Arcadio Buendía são fundamentais pra transformação de Macondo. Fora o detalhe lindo de que Melanias é o primeiro a desaparecer em Panidrom(?) e Melquíades foi o primeiro morto de Macondo.
ReplyDelete