Um bando no meio do caminho. Suas memórias são como vento. Ora esmorecidas, ora lépidas. Não se recordam ao certo de onde vieram. Só se lembram do mar. Uns por sonho, outros pela sensação do sal em suas roupas, outros pelo barulho que não sai da cabeça. O bando tem portanto, como única meta, derivar por sobre a terra seca em busca do oceano. Pescar essas memórias. Descobrir de onde vieram, do que são feitos. "Ao mar!", ordena um deles. Carregam uma carroça puxada por uma bicicleta. Na carroça, um barbante com fotos, folhas e vestígios, que leva o nome de “Varal de Fósseis”. Utilizam em suas buscas instrumentos de orientação que viajaram pelo tempo. Cada qual no seu século. Não deixam rastros nem chegam a lugar nenhum. São sempre sugados para o centro da Terra. Constroem breves relações com o espaço e o abandonam. Sempre trabalhando, festejando, dançando, cantando, cozinhando, como se tudo fosse uma coisa só. São figuras emblemáticas, andarilhos, ciganos, músicos, romeiros, circenses. Seres do submundo, da terra, peixes. Ao longo da peça, vão desaparecendo, como se fumaça. Como se memória. Perto do fim um dos peixes se encontra sozinho. Ele, o mais calado, sabe que as paisagens que todos descrevem não são o mar e sim, as cidades de onde vieram, de onde viviam. Todas submersas, cada qual pelo seu motivo. De imperadores autoritários na China a barragens no interior do Brasil, cada século leva consigo seus mortos pela terra, seus afundados pela história. E estes, os seres mais próximos do Nife são fadados a vagar pelo meio do caminho. "AO MAR!" assume o solitário. A música volta, todos reaparecem. Caminham animados e bêbados. fim.
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