Monday, October 20, 2014

E se (também)

E se um copo fosse retirado da bandeja? Ela tombaria para o lado, os outros copos se partiriam no chão. Ou o garçom teria de fazer muito esforço para mantê-la em pé. Será que quando uma pessoa desaparece a terra pende? 
O que acontece com as pessoas quando some Amarildo?

Uma história:

E então de repente uma sirene de remoção tocou.
No leste, a população viu as ondas no horizonte.
No oeste meninas caminham cegas na estrada.
No norte ninguém acredita, mas sai de casa, porque tocou uma sirene e o prefeito mandou sair.
No sul já não há mais quase ninguém. Pessoas catam lixo, objetos dos outros, esperam.
E então de repente uma sirene de remoção tocou.
Pessoas vindas de todos os lugares se encontram num meio de caminho qualquer, jogados pelo vento, jogados pela estrada. Uma mão invisível os empurrou e eles se esbarram e se cheiram.
Depois de dias de êxodo, chegam à terra prometida.
Ela é feia como uma instituição pública. Restos de obra, pepéis voando, áreas proibidas. Tudo já foi alguma coisa. Esse abandono lhes dá a sensação de que não é um lugar de futuro, e sim de passado. Agora terão de limpar o passado do espaço. Para que caiba o passado deles. Para que caiba um futuro.
As crianças exploram o presente. Alguns farejam o passado. Outros vêem o futuro. 
Será preciso: 
Alguém que saiba escrever bem.
Encontrar ou criar um lugar coberto. 
Produzir comida (Plantar o que der, e compartilhar com os demais o que houver).

1. Choque ou curiosidade ou esperança
2. Assembleia
3  Fome (comer o que se tem)
4. Sono
5. Nova fome (plantio)
6. Espera longa (silêncio amargo)
7. A terra não mente

Os que não sabem trabalhar, caem na preguiça. Eles sabem ter preguiça, são bons nisso.
Há revolta ou cada um faz aquilo que melhor sabe fazer?

Não sei mais o que escrever.

E se... juntos... nós...

- Sobreviventes de alagamentos distintos.
- Remoção planejada pelo Estado para dar um ''cala-boca'' na galera que tá reclamando.
- Perez Perez guia da remoção, massa de manobra, acha que tem poder, se fode junto.
- Chegam em Panidrom como criança que chega na Disney.
- O portão se fecha e isso não é uma questão. (Quem fecha e leva a chave? O motorista do carro?)
- Começam a perceber que não é lá tão bom assim.
- Plenária ''pé no chão'' pra traçar os rumos da sobrevivência.
- Traçam possíveis rotas de fuga (?)
- Desistem de sair.
- Convivem, organizam-se como é possível, festejam, dançam.
- Aprofundam a relação com terra que habitam. E com os habitantes.
- Tensões. Conflitos. Amores.

Problema: como sair e porque sair? quem abre o portão? alguém volta com alguma boa-nova lá de fora?

AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH!!!!!!!

e se...?

- chegam todos cegos pela esperança de se salvarem dos alagamentos fora de Panidrom
- festejam ao chegar em terra seca
- descobrem a falta de água e comida em Panidrom, e consequentemente, a dificuldade de sobrevivência
- fuga de Perez
- plenária, onde se vingam de Perez e se organizam para sobreviverem em Panidrom
- todos nas ruínas trabalhando e na rotina
- acham comida e bebida, comem, bebem e festejam
- estupro
- puta some com perez
- sexo melanias e januária. jana pira no melanias, melanias pula o muro
- puta mata o perez (TCHAM TCHAM TCHAM TCHAM!) (ensaio sobre a cegueira!)
- CAOS EM PANIDROM (sei lá o que rola aqui, gente)
- marenka invade o carro, peixe abre o portão
- cortejo de saída, com festa, dança, cerveja

fudeu, viajei, tô fritando

Tuesday, October 14, 2014

Fim 3 - Palhaço Borboleta

MARENKA: E se eu acordo à noite cheia de terra?
PEIXE: Eu abro minha cova.
MARENKA: atravesso os ossos do peito com meus canudos de dedo. no lugar do coração tem um rato que eu deposito na sua frente. as tripas se mexem na pulsação do diafragma, acho que consigo ver o esôfago dele. o rato está mais vivo do que eu, entende? ele sentia uma dor na barriga que não passava e com as unhas coçava o pelo até arranhar a pele. com a ajuda dos dentes abriu um buraco capaz de passar uma agulha, por onde tentou arrancar seus medos com uma pinça que se derreteu em ácido. conseguiu puxar para fora um pedaço do intestino delgado e seguiu puxando em piruetas imprecisas e lindas, como um palhaço chorando que segue cambaleando por entre os trilhos trêm procurando o melhor lugar para deitar. dali a pouco a cidade alaga. o palhaço se encontra entre uma igreja branca e uma estação abandonada. lá seria escuro o suficiente para que não percebessem a sua presença. não que alguma vez alguém o tivesse notado. mas esperava que não fosse logo agora, no fim, que fosse visto. não esperava que fosse antes do início o fim que esperava que fosse logo agora tudo o que queria era ser visto, agora, no início de tudo. deitou-se no trilho, os braços para cima em alto lá, uma margarida de plástico na boca. o tempo passou ao contrário por uma eternidade e logo agora seria certeiro no fim do inicio de tudo de tudo início fim nunca certo. o trem acelerava depois da curva e o palhaço implorava por clemência. dali a pouco, seria tudo inundado. Num instante a rua se encheu, o trem acelerava, amanheceu, as crianças pintavam mapas, o trem acelerava, o palhaço conseguia sentir adrenalina pela primeira vez, o bonde até tenta desviar, mas descarrila, passa em cima da mão alto lá do palhaço e se atira contra um caminhão de gás que explode o trem, uma igreja, 3 cachorros e a puta. do meio da fumaça o palhaço surge dançando em mil piruetas. uma borboleta insistindo em se queimar na lâmpada. seu grito é seco. suas mãos estendidas a frente do corpo, onde cindo dedos ausentes agora jatos vermelhos de sangue criam círculos no chão. o rato morre finalmente. e eu consigo dormir, entende?
PEIXE: dorme logo, marenka. que eu já to sentindo o chão tremer.

Fim 2 - ladrões de memória


peixe: tá sentindo isso? acho que o tempo parou.
marenka: é seu relógio, porra.
silêncio
marenka: imagina se toda vez o tempo parasse. ondas gigantes, paredes rasgadas pela água, queda no poço, cara no balde, praças inundadas, barragens, imagina se parassem. milhoes e milhoes de particulas de agua se locomovedo tão lentamente que demorariam milênios para o segundo seguinte.
marenka: vocês estão indo para um lugar maravilhoso agora, o melhor do mundo!
eles riem muito
peixe: obrigada, história do mundo, por guardar para nós toda essa indiferença.
marenka: milênios, milênios, milênios.
silêncio
peixe: vamos fundar uma cidade!
marenka: socorro! essa maluca quer me seduzir!
ele avança para cima dela. eles riem e se batem.
peixe: vamos roubar mais memórias!
Marenka quebra uma garrafa na cabeça do Peixe, a música muda a frequência. Tudo é agitado. Num impulso, O Peixe levanta e corre atrás dela. Eles correm e riem até que ele a alcança e a joga no ombro Música alta. Cada um vem do seu canto. Todos dançam. Festa com bebidas e quitutes.

Fim 1 - Adão e Eva - que já não é

Marenka e o Peixe caminham bêbados. Os dois vestidos de mulher. Um misto de dança, cansaço e embriaguez. Ao fundo, uma morta dança.
O PEIXE: No princípio era a terra.
Eles gargalham
MARENKA: o mar engole tudo.
O PEIXE: cria chão, rasga chão, vira continente, afunda continente. nasce submundo. morre humano.
MARENKA: Blablablabla. Poeta de cu.
O PEIXE: Você fica linda brava
MARENKA: Para. Eu tô grávida de mim. Preciso descansar. Conta mais.
O PEIXE: Deus, Darwin, Prometeu, Nu Wa e Stela do Patrocínio criaram o homem.
MARENKA: Aí vem um filho da puta, constrói uma hidrelétrica, afunda a porra toda e fode com as ideias.
O PEIXE: A água que te traz te leva, Marenka!
MARENKA: Só sobrou eu e ela! Não vai dar pra povoar o mundo! Alô! Tem alguém aí? Só tem eu e essa velha pelancuda. Vem comigo, porra!
O PEIXE: To cansado de morrer. Resolvi virar peixe.
MARENKA: Grandes Cidades!
O PEIXE: Água
MARENKA: Célebres
O PEIXE: Água
MARENKA: Cidades Históricas
O PEIXE: Água
MARENKA: Amores e desamores
O PEIXE: Água
MARENKA: Cansei de nascer, resolvi virar peixe.
O PEIXE: E depois?
Marenka quebra uma garrafa na cabeça do Peixe, a música muda a frequência. Tudo é agitado. Num impulso, O Peixe levanta e corre atrás dela. Eles correm e riem até que ele a alcança e a joga no ombro Música alta. Cada um vem do seu canto. Todos dançam. Festa com bebidas e quitutes.

Monday, October 6, 2014

Onde

Grandes espaços para encontro. Se for uma cidade, que tenha bares e luzes à noite, para que haja movimento e não precise passar a patrulhinha. Horizonte para sonhar. Mares possíveis. Ondas nem sempre violentas, nem sempre calmas. Escolas com muitos espaços. Bicicletas. Ladeiras pra gente malhar a perna. Cordas nas árvores pra gente brincar de ser macaco. Casas iluminadas pelo sol. Plantações de maconha sem agrotóxicos. Flores. Tempo para fabricar coisas: instrumentos musicais, objetos inusitados. Caminhos bonitos para andar a pé. Não haverá prédios espelhados, não haverá o reflexo violento dos metais, os pássaros não morrerão enganados. O ar não será abafado, não haverá fumaça inútil. Só das panelas. Os trens levam e trazem pessoas. A distância não nos assustará. A água sairá limpa dos canos. Não cercarão os rios de concreto. Se o progresso chegar, não trocarão cavalos pelos motocicletas, mas pelas próprias pernas. Falaremos com seres de outros tempos, de Atlantis, e dos anos 60-70. Com esses a gente já se comunica, mas não sabe. Jogos teatrais. Que o vento nos refresque e não derrube nossas casas. Tempo para criar. Tempo para meditar. Força para trabalhar. Nenhuma definição de sexualidade ou profissão. Os corpos se conhecerão pelo toque, sem espera, sem cuilpa, sem expectativas. Os chucros conhecerão o amor como adolescentes. Os velhos serão acarinhados e respeitados, suas lembranças serão calmas. Os bandidos não serão punidos nem perdoados, tudo cairá por terra e eles precisarão olhar para si próprios e construir alguma coisa. As crianças não serão estupradas, nem os adultos. Convivência amistosa entre céticos e míticos, cada um vê a terra como quer. Deus está em todas as coisas. Deus é todas as coisas. Todas as coisas são de Deus. Todas as coisas são nossas. Deus é nosso. Todos os deuses. E tudo gira. Mu maior desafio será fugir da representação. Porque esta estante, esta cama, este quadro na parede não poderão mais ser minha roupa. Não poderão ser minha máscara. "Um livro de poesia na gaveta não adianta nada, lugar de poesia é na calçada." É difícil abrir mão desta cidade. Difícil abrir mão do caos do centro. 
Não haverá arrogância nas boates, se houver boates. Na verdade não haverá, a fumaça de nossos cigarros irá para os céus, nosso suor evaporando, homens e mulheres se beijando sem medo de apanhar. 
Conseguirei viver sem queijo? como ficará a questão das vacas?
Papai fará doces no domingo.
Mamãe de bigode fazendo quadros que dirão surrealistas, mas ela não sabe o que é isso, no sertão a fome é tanta que um movimento alimenta o outro. O filho surrealista não nega o pai impressionista. 
Os executores das grande obras receberão o mesmo que os idealizadores. 
Os artistas se recusarão a fazer shows de R$ 300,00.
Quando os atores precisarem de caixa preta, farão a caixa preta com madeira e pano. E as caixas pretas andarão por aí, com filmes e histórias. Os antigos cinemas reabrirão suas portas. E nas igrejas poderemos nos ajoelhar, levitar, dançar em roda, incorporar, tomar cháse fazer muitas ceias, igualmente santas, com índios e freis titos. 
Objetos fálicos só para o amor, sem o recalque masculino, sem dominação do corpo alheio.
Não haverá pistola nem bala.
Não haverá tiro, porrada ou bomba.
Não inventarão a espada.
Irene dará sua risada.
En las multitudes el hombre que yo amo.
Una hermana muy hermosa que se llama libertad.
Brisa. Conversas na calçada com brisa. Por enquanto é isso.