Grandes espaços para encontro. Se for uma cidade, que tenha bares e luzes à noite, para que haja movimento e não precise passar a patrulhinha. Horizonte para sonhar. Mares possíveis. Ondas nem sempre violentas, nem sempre calmas. Escolas com muitos espaços. Bicicletas. Ladeiras pra gente malhar a perna. Cordas nas árvores pra gente brincar de ser macaco. Casas iluminadas pelo sol. Plantações de maconha sem agrotóxicos. Flores. Tempo para fabricar coisas: instrumentos musicais, objetos inusitados. Caminhos bonitos para andar a pé. Não haverá prédios espelhados, não haverá o reflexo violento dos metais, os pássaros não morrerão enganados. O ar não será abafado, não haverá fumaça inútil. Só das panelas. Os trens levam e trazem pessoas. A distância não nos assustará. A água sairá limpa dos canos. Não cercarão os rios de concreto. Se o progresso chegar, não trocarão cavalos pelos motocicletas, mas pelas próprias pernas. Falaremos com seres de outros tempos, de Atlantis, e dos anos 60-70. Com esses a gente já se comunica, mas não sabe. Jogos teatrais. Que o vento nos refresque e não derrube nossas casas. Tempo para criar. Tempo para meditar. Força para trabalhar. Nenhuma definição de sexualidade ou profissão. Os corpos se conhecerão pelo toque, sem espera, sem cuilpa, sem expectativas. Os chucros conhecerão o amor como adolescentes. Os velhos serão acarinhados e respeitados, suas lembranças serão calmas. Os bandidos não serão punidos nem perdoados, tudo cairá por terra e eles precisarão olhar para si próprios e construir alguma coisa. As crianças não serão estupradas, nem os adultos. Convivência amistosa entre céticos e míticos, cada um vê a terra como quer. Deus está em todas as coisas. Deus é todas as coisas. Todas as coisas são de Deus. Todas as coisas são nossas. Deus é nosso. Todos os deuses. E tudo gira. Mu maior desafio será fugir da representação. Porque esta estante, esta cama, este quadro na parede não poderão mais ser minha roupa. Não poderão ser minha máscara. "Um livro de poesia na gaveta não adianta nada, lugar de poesia é na calçada." É difícil abrir mão desta cidade. Difícil abrir mão do caos do centro.
Não haverá arrogância nas boates, se houver boates. Na verdade não haverá, a fumaça de nossos cigarros irá para os céus, nosso suor evaporando, homens e mulheres se beijando sem medo de apanhar.
Conseguirei viver sem queijo? como ficará a questão das vacas?
Papai fará doces no domingo.
Mamãe de bigode fazendo quadros que dirão surrealistas, mas ela não sabe o que é isso, no sertão a fome é tanta que um movimento alimenta o outro. O filho surrealista não nega o pai impressionista.
Os executores das grande obras receberão o mesmo que os idealizadores.
Os artistas se recusarão a fazer shows de R$ 300,00.
Quando os atores precisarem de caixa preta, farão a caixa preta com madeira e pano. E as caixas pretas andarão por aí, com filmes e histórias. Os antigos cinemas reabrirão suas portas. E nas igrejas poderemos nos ajoelhar, levitar, dançar em roda, incorporar, tomar cháse fazer muitas ceias, igualmente santas, com índios e freis titos.
Objetos fálicos só para o amor, sem o recalque masculino, sem dominação do corpo alheio.
Não haverá pistola nem bala.
Não haverá tiro, porrada ou bomba.
Não inventarão a espada.
Irene dará sua risada.
En las multitudes el hombre que yo amo.
Una hermana muy hermosa que se llama libertad.
Brisa. Conversas na calçada com brisa. Por enquanto é isso.
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