Monday, October 6, 2014

Onde

Grandes espaços para encontro. Se for uma cidade, que tenha bares e luzes à noite, para que haja movimento e não precise passar a patrulhinha. Horizonte para sonhar. Mares possíveis. Ondas nem sempre violentas, nem sempre calmas. Escolas com muitos espaços. Bicicletas. Ladeiras pra gente malhar a perna. Cordas nas árvores pra gente brincar de ser macaco. Casas iluminadas pelo sol. Plantações de maconha sem agrotóxicos. Flores. Tempo para fabricar coisas: instrumentos musicais, objetos inusitados. Caminhos bonitos para andar a pé. Não haverá prédios espelhados, não haverá o reflexo violento dos metais, os pássaros não morrerão enganados. O ar não será abafado, não haverá fumaça inútil. Só das panelas. Os trens levam e trazem pessoas. A distância não nos assustará. A água sairá limpa dos canos. Não cercarão os rios de concreto. Se o progresso chegar, não trocarão cavalos pelos motocicletas, mas pelas próprias pernas. Falaremos com seres de outros tempos, de Atlantis, e dos anos 60-70. Com esses a gente já se comunica, mas não sabe. Jogos teatrais. Que o vento nos refresque e não derrube nossas casas. Tempo para criar. Tempo para meditar. Força para trabalhar. Nenhuma definição de sexualidade ou profissão. Os corpos se conhecerão pelo toque, sem espera, sem cuilpa, sem expectativas. Os chucros conhecerão o amor como adolescentes. Os velhos serão acarinhados e respeitados, suas lembranças serão calmas. Os bandidos não serão punidos nem perdoados, tudo cairá por terra e eles precisarão olhar para si próprios e construir alguma coisa. As crianças não serão estupradas, nem os adultos. Convivência amistosa entre céticos e míticos, cada um vê a terra como quer. Deus está em todas as coisas. Deus é todas as coisas. Todas as coisas são de Deus. Todas as coisas são nossas. Deus é nosso. Todos os deuses. E tudo gira. Mu maior desafio será fugir da representação. Porque esta estante, esta cama, este quadro na parede não poderão mais ser minha roupa. Não poderão ser minha máscara. "Um livro de poesia na gaveta não adianta nada, lugar de poesia é na calçada." É difícil abrir mão desta cidade. Difícil abrir mão do caos do centro. 
Não haverá arrogância nas boates, se houver boates. Na verdade não haverá, a fumaça de nossos cigarros irá para os céus, nosso suor evaporando, homens e mulheres se beijando sem medo de apanhar. 
Conseguirei viver sem queijo? como ficará a questão das vacas?
Papai fará doces no domingo.
Mamãe de bigode fazendo quadros que dirão surrealistas, mas ela não sabe o que é isso, no sertão a fome é tanta que um movimento alimenta o outro. O filho surrealista não nega o pai impressionista. 
Os executores das grande obras receberão o mesmo que os idealizadores. 
Os artistas se recusarão a fazer shows de R$ 300,00.
Quando os atores precisarem de caixa preta, farão a caixa preta com madeira e pano. E as caixas pretas andarão por aí, com filmes e histórias. Os antigos cinemas reabrirão suas portas. E nas igrejas poderemos nos ajoelhar, levitar, dançar em roda, incorporar, tomar cháse fazer muitas ceias, igualmente santas, com índios e freis titos. 
Objetos fálicos só para o amor, sem o recalque masculino, sem dominação do corpo alheio.
Não haverá pistola nem bala.
Não haverá tiro, porrada ou bomba.
Não inventarão a espada.
Irene dará sua risada.
En las multitudes el hombre que yo amo.
Una hermana muy hermosa que se llama libertad.
Brisa. Conversas na calçada com brisa. Por enquanto é isso. 



espero

encontrar menos medo, menos rancor, menos fúria, menos fuga, menos tudo aquilo que está e é e reina hoje nos espaços longos da rotina exaustiva. espero mais presença, de todos os lados, invadindo todas as partículas e veias do corpo terra. mais conexão, menos isolamento. não sei esperar algo concreto e de possível construção para um possível espaço. o que mais busco é um espaço branco, o que menos consigo explicar, aquilo que quando nomeio se afasta, mas está e é. aquilo que não vemos, mas que contém tudo. e que de alguma forma existe em tudo e todos, que de alguma forma é o que conecta e explica o porquê disso tudo.
desculpe a neblina, mas é o que tenho pra hoje.

No melhor lugar do mundo eu esperaria encontrar...

Thursday, October 2, 2014

daquilo que nao falo, só vomito
igualmente:
-devastador
-criador
-enlouquecedor


                                     

                                                                     TERRAGUARDO

Tuesday, September 30, 2014

Declaración a la Puta, mi amor

Puta, mi amor!
Nuestro amor és un estupro consentido!
Una papinha de bebê orgânica!
Una TPM controlada!
Una abstinência desejada!
Una canción que no tiene fin jamás!
Te quiero simpre, mi amor!
Vamos hacer legado juntos!
Deixar legado!
Poner fuego en nuestra tierra!
Sacudir las estruturas de nuestra casa!
Te quiero ahora, mi amor!
Escucha la voz del Gran, mi amor!
Toma cuidado!
Atención a la fiación, a los pregos del camiño, mi amor!
Puta, mi vida!
Puta, cariño!
Puta, mi amor!
No me pierda jamás!

Siempre tuyo,

Peres.

(Texto dedicado também a amiga Cássia: pelo encontro, pela troca, pelo sim, pela relação seriamente reveladora, amorosa, tesuda e limítrofe que nasceu entre as nossas criaturas.)

Friday, September 26, 2014

Coisas que me disseram de Barros à Jaguaribara

ME DIZ SOBRE O SEU LUGAR
 "Ao ver os escombros da casa onde nasceu, Mathusalém não conteve as lágrimas: 'Eu e meus irmãos, brincávamos debaixo dessa árvore, lembro de ficar correndo com os meninos, nesse espaço da frente. A gente costumava ir ajudar o papai a espremer cana-de-açúcar pra gente tomar com limão', conta, emocionado."


AUTO RETRATO FALADO

Venho de um Cuiabá de garimpos e de ruelas entortadas.

Meu pai teve uma venda no Beco da Marinha, onde nasci.
Me criei no Pantanal de Corumbá entre bichos do chão,
      aves, pessoas humildes, árvores e rios.
Aprecio viver em lugares decadentes por gosto de estar
      entre pedras e lagartos.
Já publiquei 10 livros de poesia: ao publicá-los me sinto 
      meio desonrado e fujo para o Pantanal onde sou 
      abençoado a garças.
Me procurei a vida inteira e não me achei — pelo que
      fui salvo.
Não estou na sarjeta porque herdei uma fazenda de gado.
Os bois me recriam. 
Agora eu sou tão ocaso!
Estou na categoria de sofrer do moral porque só faço
      coisas inúteis.
No meu morrer tem uma dor de árvore.

Manoel de Barros

O mundo meu é pequeno, Senhor.
Tem um rio e um pouco de árvores.
Nossa casa foi feita de costas para o rio.
Formigas recortam roseiras da avó.
Nos fundos do quintal há um menino e suas latas
maravilhosas.
Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas
com aves.
Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os
besouros pensam que estão no incêndio.
Quando o rio está começando um peixe,
Ele me coisa
Ele me rã
Ele me árvore.
De tarde um velho tocará sua flauta para inverter
os ocasos

Manoel de Barros



ME DIZ SOBRE ELE E DO QUE ELE ANDA FAZENDO

"Irmã Bernadete conta um dos momentos mais emocionantes de toda essa história: 'Havia um pescador, inconsolado de cócoras ao lado do rio, chorando muito. Sua mudança já estava toda no CARRO e estavam aguardando ele para partir. Eu fui até ele e fiquei do seu lado, quando ele perguntou ´ Irmã, como é que eu vou me separar desse rio?´, e eu respondi que ele voltasse lá sempre que sentisse saudades."


O APANHADOR DE DESPERDÍCIOS
Uso palavras para compor meus silêncios
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.

Só uso a palavra para compor meus silêncios.

Manoel de Barros



Toda vez que encontro uma parede
ela me entrega às suas lesmas.

Não sei se isso é uma repetição de mim ou das
lesmas.
Não sei se isso é uma repetição das paredes ou
de mim.
Estarei incluído nas lesmas ou nas paredes?
Parece que lesma só é uma divulgação de mim.
Penso que dentro de minha casca
não tem um bicho:
Tem um silêncio feroz.
Estico a timidez da minha lesma até gozar na pedra.
Manoel de Barros


" A visita foi acompanhada pelo vereador Mathusalém Maia, que foi o primeiro a saber das ruínas, a Coordenadora de Cultura do município, Mariane Souza e pelo guia Gil Queiroz, sendo os dois primeiros antigos moradores da cidade."

Conheço de palma os dementes de rio.

Fui amigo do Bugre Felisdônio, de Ignácio Rayzama
e de Rogaciano.
Todos catavam pregos na beira do rio para enfiar
no horizonte.
Um dia encontrei Felisdônio comendo papel nas ruas
de Corumbá.
Me disse que as coisas que não existem são mais
bonitas.
Manoel de Barros




"Hoje, a população aguarda ansiosamente o projeto de construção da Casa da Memória, um museu que contará toda a história desse momento importante para a história da cidade. Os poucos objetos que restaram da velha cidade coberta pela água estão expostos em uma pequena casa alugada pela Prefeitura."

Em vez de peraltagem eu fazia solidão. Brincava de fingir que pedra era lagarto. Que lata era navio. Que sabugo era um serzinho mal resolvido e igual a um filhote de gafanhoto. Cresci brincando no chão, entre formigas. De uma infância livre e sem comparamentos. Eu tinha mais comunhão com as coisas do que comparação.

Porque se a gente fala a partir de ser criança, a gente faz comunhão: de um orvalho e sua aranha, de uma tarde e suas garças, de um pássaro e sua árvore. Então eu trago das minhas raízes crianceiras a visão comungante e oblíqua das coisas. Eu sei dizer sem pudor que o escuro me ilumina.
(Memórias inventadas – As Infâncias de Manoel de Barros)

TRECHOS: http://diariodonordeste.verdesmares.com.br/cadernos/regional/antiga-jaguaribara-reaparece-nas-aguas-do-acude-castanhao-1.265925

Tuesday, September 23, 2014

de onde veio Marenka

Mapa Hidrográfico da República Checa:









- Rio Elba (nasce na República Checa)

- Rio Vltava, um afluente do Elba

- Rio Moldava

- Rio Berounka

- Rio Kamenice



JUNHO DE 2013:

As inundações na Europa central ameaçaram várias cidades da Alemanha, República Tcheca e Áustria, ao longo dos rios Elba e Danúbio. Nas áreas de risco, os moradores se revezavam dia e noite para encher sacos de areia para reforçar os diques. As autoridades de Praga, com a ajuda de soldados do Exército tcheco, levantavam barreiras de sacos de areia contra as águas.
Marenka ainda se encontra correndo por aí, carregando seus sacos de areia. de mentira.








































(AMULETOS! CARINHOS!)














































































Fotos retiradas do site:
http://noticias.uol.com.br/album/2013/05/04/tempestades-atingem-a-europa.htm#fotoNav=17